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Artigo Sexta-feira, 10 de Abril de 2015, 00:00 - A | A

10 de Abril de 2015, 00h:00 - A | A

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O dilema Dilma X PT X Lula



Eleita por uma margem apertada de votos- pouco mais de 3% - a Presidente Dilma vive um dilema, ou se preferem, um "inferno astral": o discurso marketeiro da campanha  não bate com a prática de governo. Prova disso, o baixo percentual de apoio nacional- 12% com 03 meses de mandato, e uma rejeição de 62%, coisa de final de "feira". 

As surpresas após a posse foram extremamente desagradáveis para quem acreditou que tais iniciativas fossem apanágio do PSDB: um ajuste fiscal formulado pelo ministro Joaquim Levy, que inclui cortes em direitos previdenciários e trabalhistas, restrições na concessão de benefícios sociais, como abono salarial, pensão por morte, seguro-desemprego, seguro-defeso, auxílio-doença e auxílio-reclusão, além dos aumentos de tarifas- água, luz, energia elétrica, já executados, criou um problema político complicado de equacionar envolvendo o governo petista, os eleitores, o PT e os movimentos sociais. 

Isso, sem falar do Petrolão, que ainda vai dar pano prá manga. Em contrapartida, os trabalhadores, através da CUT e outras centrais sindicais, querem que o ajuste fiscal recaia sobre o "andar de cima", por exemplo, com a regulamentação do imposto sobre grandes fortunas e o aumento do imposto sobre herança. Na nova conjuntura pós-eleitoral, há menos espaço para arranjos políticos desenvolvimentistas, que propiciem ganhos ao empresariado produtivo e aos trabalhadores.

 A retração da economia, a inflação beirando os 8% e a opção ortodoxa de ajuste escolhida aumentam o conflito distributivo entre "os de cima e os de baixo". Ao invés do "ganha-ganha", a situação alterou-se para uma disputa do tipo jogo de "soma zero", no qual um ganha e outro perde: o empresário e o trabalhador.

 Mas como fica o PT- e seu maior mentor Lula- nessa conjuntura plena de contradições? Dilma, qualificada na campanha eleitoral como "bolivariana", vem sendo acusada, pelas oposições de direita e esquerda e segmentos do próprio PT, de praticar estelionato eleitoral, por promover o ajuste de corte neoclássico que algumas das forças que a criticam, na verdade, a empregariam, como o próprio PSDB. 

 O ex-presidente mencionou que, em 2003, fez um ajuste ainda mais forte do que o atual, segundo ele, necessário. E, como sempre, soltou o verbo: “Não temos problema com o andar de cima. Não queremos perturbar os do andar de cima, mas não perturbem a gente” (Folha de S. Paulo, 1 de abril). Aliás, o "andar de cima"- empresas, empresários e banqueiros sempre apoiaram e apoiam Lula, basta ver suas andanças pelo Brasil e pelo Mundo, em jatinhos particulares e polpudas receitas com "palestras". Uma mão lava a outra, diz o ditado. Por outro lado, as informações disponíveis apontam no sentido de que Lula foi o fiador da nomeação de

Joaquim Levy. O equilíbrio buscado pelo ex-presidente é delicado e, como sempre, demagógico, pois ele não assume publicamente suas escolhas. É conhecido por abandonar seus companheiros e fiéis serviçais no campo de batalha e feridos - José Dirceu é um exemplo clássico. A posição de parcela do PT que apoia Dilma, considera que o ajuste é necessário, mas defende o diálogo tripartite entre governo, partido e movimento sindical e popular, e aponta para a perspectiva de uma solução de compromisso entre os interesses de

Joaquim Levy e os das classes populares, coisa difícil de acontecer dada a biografia do Ministro. A única saída honrosa para o PT depende de sua capacidade de colocar-se como efetivo mediador de um acordo que distribua melhor os custos do ajuste fiscal entre os ricos e os pobres.
 
(*) Auremácio Carvalho é advogado e ex-Ouvidor Geral de Polícia de MT. 

 

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