Márcio Maio/TV Press
Aos 28 anos, Alanis Guillen enxerga na fantástica aventura de Flora, sua personagem em “Vermelho Sangue”, conflitos bastante reconhecíveis em uma adolescente, uma fase marcada pela busca e descoberta da própria identidade. Para a atriz, a busca incessante de Flora por se diferenciar acaba conduzindo a personagem de volta a uma questão aparentemente simples: a necessidade de reconhecer o próprio. “Quando a gente busca muito fora, a gente perde algo que é essencial, que é o básico. Essa busca por ser alguém faz a gente se dar conta de que nada é melhor do que ser quem a gente é”, reflete. “Acho que é uma jornada de busca existencialista mesmo, de busca do quem eu sou, do que eu adoro, do que eu gostaria, de quem eu posso ser”, completa.
Quando a gente busca muito fora, a gente perde algo que é essencial, que é o básico
Em boa parte da primeira temporada da série da Globosat, a personagem de Alanis viveu fascinada por tudo aquilo que pudesse afastá-la de uma existência comum. Ela invejava a vida da melhor amiga Luna, papel de Leticia Vieira, que lidava com sua natureza de lobimoça, e também almejava os poderes dos vampiros Celina e Michel, vividos por Laura Dutra e Pedro Alves. Era essa vida extraordinária que Flora queria experimentar.
Na segunda temporada de “Vermelho Sangue” este desejo, finalmente realizado, passa a cobrar uma alto preço. Salva da morte por Celina ao ser transformada em vampira, Flora mergulha inicialmente no deslumbre provocado pela imortalidade e pelos novos poderes. Mas precisou descobrir do que tinha de abrir mão para se tornar aquilo que tanto idealizou. “É muito claro esse desejo da Flora pelo desconhecido, pelo além, por atravessar o humano. A trajetória dela é muito de uma jovem mesmo, porque traz questões existenciais dessa juventude, dessa fase em que a gente cria muitas expectativas, muitos ideais, muitos sonhos”, analisa sua intérprete.
A transformação também aproxima definitivamente Flora de Celina. Se o fim da primeira temporada já indicava que a ligação entre as duas ultrapassaria a relação entre criadora e criatura, os novos episódios desenvolvem o romance e colocam as personagens diante da descoberta de um sentimento inesperado. “Acho que ambas são surpreendidas por esse afeto que se descobre. A Celina se apaixona quase que involuntariamente, se vê apaixonada mesmo. E vai descobrindo que essa paixão é mais forte que ela. A Flora fica entregue a tudo de novo que está vivendo e experienciando, cheia de vontade, de desejos infinitos, profundos”, explica.
A diferença de experiências entre elas ajuda a alimentar essa atração. Vampira centenária, Celina assume uma posição dominante e passa a conduzir Flora pela nova realidade, enquanto a recém-transformada se entrega à curiosidade e aos sentimentos que começa a experimentar. Para Alanis, a relação se fortalece com o espaço dado ao desejo e à autonomia de cada uma. “Elas experimentam uma confiança, uma liberdade. Flora é muito livre e a Celina respeita os desejos da Flora, as descobertas dela. É muito bonito ver como elas se expandem”, valoriza. Nos bastidores, a parceria com Laura também deixou marcas. “Aprendi muito com ela a cada troca. Muito preparada, muito entregue também, bem visceral. Foi incrível, saí melhor, com certeza, depois desse projeto todo”, elogia.
Criada e escrita por Claudia Sardinha e Rosane Svartman, “Vermelho Sangue” ainda coloca vampiros diante de uma criatura com raízes bem mais próximas do imaginário brasileiro. A trama ambientada na fictícia Guarambá, no cerrado mineiro, dá contornos brasileiros ao mito do lobisomem ao incorporar a figura da lobimoça ligada ao lobo-guará e mistura referências estrangeiras do gênero fantástico com elementos nacionais. Alanis acredita que há um universo amplo a ser explorado a partir dessa combinação. “O Brasil é tão rico de lendas e de figuras do imaginário que, realmente, eu acho que nosso país tem muito a contribuir com nossa versão desses seres místicos. A Flora ia amar ver fadas ou um duende brasileiro”, brinca.
“Vermelho Sangue” – Globoplay.
Fora de ordem
A transformação de Flora ao longo de “Vermelho Sangue” exigiu de Alanis Guillen uma construção pouco convencional. As duas temporadas foram gravadas em conjunto e, por isso, o elenco precisou transitar entre diferentes momentos dos personagens sem seguir necessariamente a cronologia da história. Para Alanis, o desafio apareceu logo no início dos trabalhos. “A gente abriu o set com uma primeira cena já do meio da segunda temporada, em um estado da personagem mais desenvolvido e profundo”, recorda.
Embora um período de preparação e ensaios tenha ajudado a delinear as relações e os arcos, foi durante as próprias gravações que a atriz encontrou novas camadas em Flora. “É no set que a gente descobre e amplia isso. Foi cena a cena, envolvida na história e nesse estudo desse arco da personagem”, explica. A construção ganhou forma também na troca com a direção artística de Patricia Pedrosa e com os colegas de elenco. “Foi um desafio muito delicioso de enfrentar e de se descobrir”, resume.
Instantâneas
# Alanis foi batizada com esse nome em homenagem à cantora Alanis Morissette.
# A atriz estreou na televisão aos 20 anos, como a protagonista Rita de “Malhação: Toda Forma de Amar”, última temporada inédita do folheteen, exibida entre 2019 e 2020.
# Em 2021, Alanis foi anunciada como Juma Marruá no remake de “Pantanal”, sua primeira novela das 21h da Globo, que estrearia no ano seguinte. A personagem herdava da mãe o dom de se transformar em onça-pintada.
# Em sua novela mais recente, “Três Graças”, Alanis chamou atenção como a corajosa Lorena, uma garota que se descobre apaixonada pela policial Juquinha, interpretada por Gabriela Medvedovski. O romance fez enorme sucesso entre o público nas redes sociais, viralizando inclusive em outros países.










