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Artigo Quinta-feira, 02 de Junho de 2022, 08:26 - A | A

02 de Junho de 2022, 08h:26 - A | A

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A Lição do Cerrado

Na florada, uma nuvem de abelhas e insetos percorre a imensidão de um jardim suspenso e farto



Por Paulo Wagner          

O cerrado é uma floresta cujas raízes são maiores que os ramos acima da terra, uma floresta que cresce para baixo, e assim as árvores do cerrado guardam água para enfrentar o estio que dura a metade do ano em muitas regiões do país. Assim, o cerrado libera de suas raízes, lentamente, as águas que alimentam nascentes, pequenos córregos, grandes rios e toda a vida por onde seus mananciais passam. Isso torna possível o correr das cachoeiras na época mais seca do ano.    

       Quando o estio se adensa, as árvores do cerrado, resistentemente, vão perdendo suas folhas e uma infinidade de ramos retorcidos passa a dominar a paisagem. É no auge da seca, obedecendo um relógio oculto da natureza, que o cerrado resolve florir, mostrando a vida e a beleza guardado no cerne e na seiva de suas entranhas.    

       Não é uma florada qualquer, é uma florada exuberante, repleta de flores exóticas, ipês de múltiplas cores e matizes, cega-machados cobertos de flores lilases, copas inteiras transformadas em branco buquê. Na florada, uma nuvem de abelhas e insetos percorre a imensidão de um jardim suspenso e farto, repleto de pólen, néctar e fertilidade. Um espetáculo natural que passa despercebido aos olhos desatentos e apressados do dia a dia, apesar de sua grande força e beleza.     

      É também no estio que as sementes da sucupira, do tamboríu, do jatobá, do murici, do gravatá, do araticum, do barú, do groá e da maioria das plantas do cerrado se formam, amadurecem e caem para fecundar a terra e plantar a esperança da continuidade da vida. Trazendo a lição do cerrado de estar sempre pronto para resistir às intempéries, de estar sempre pronto para florir no tempo mais seco e inóspito, mostrando que a vida resiste, renasce e continua seu caminho natural.    

       E o que parecia morto, inerte e apagado pelo estio, renasce na transitoriedade cíclica de tudo quanto há, no ir e vir das estações ao longo do tempo, no tempo certo de todas as coisas escritas no livro de Deus. Na chuva certeira que acordará mais uma vez a semente para receber o dom da vida e a luz do Sol sobre suas folhas.

(*) PAULO WAGNER é Escritor, Jornalista e Mestre em Estudos de Linguagem e Literatura.   

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