por Eduardo Rocha/Auto Press
A Stellantis seguiu a lógica ao elencar o Leapmotor C10 REEV para encarar os rivais chineses, que dominam o mercado de crossovers híbridos de médio porte. Ele atacou exatamente os dois pontos que representaram a força dos modelos chineses quando desembarcaram por aqui: custo/benefício e tecnologia. O preço de lançamento, então, foi quase um escárnio: R$ 204.990. Agora, a tabela subiu para R$ 219.990, o que o deixa algumas dezenas de milhares de reais mais barato que os rivais diretos da BYD e GWM. O modelo foi apresentado no final de novembro e nos dois primeiros meses de mercado emplacou cerca de 500 unidades por mês.
A maior diferença do C10 REEV está na autonomia estendida. Ao contrário dos rivais, nele o motor de combustão interna de 1.5 litro nunca move as rodas diretamente. Sua única função é servir como gerador para recarregar a bateria de 28,4 kWh, ampliando assim o alcance do veículo. O resultado é uma autonomia puramente elétrica de 111 km e em torno de 800 km com o tanque de 50 litros de gasolina cheio. Tudo isto com um consumo médio de apenas 25 km/l em modo combinado. Além disso, essa tecnologia dispensa a caixa de marchas, pois apenas o motor elétrico se liga diretamente ao diferencial para tracionar as rodas. Isso reduz drástica no número de componentes e, consequentemente, no número de problemas.
O motor elétrico do C10 tem 215 cv de potência e 32,6 kgm de torque, para movimentar um modelo que pesa pouco menos de duas toneladas. A relação peso/potência de 9,2 kg/cv mostra que a intenção do crossover da Leapmotor não é oferecer um desempenho esportivo, mas garantir uma direção responsiva e suave. A tração é traseira, com suspensão McPherson na frente e multilink na traseira, uma configuração que garante estabilidade e conforto de condução.
Com seus 4,74 metros de comprimento, 1,90 m de largura e 1,68 m de altura, o C10 REEV tem proporções equilibradas que escondem uma cabine extremamente espaçosa, com piso plano, gerada por uma distância entre eixos de 2,83 metros. O espaço para os passageiros foi amplamente privilegiado. Tanto que o porta-malas comporta apenas 435 litros, o que é suficiente para o uso, mas pequeno levando-se em consideração as dimensões do modelo.
O design exterior tem traços limpos, tornando o modelo discreto – na verdade, não há nenhum cromado aparente. Esse mesmo desenho é aplicado ao modelo elétrico. As duas únicas diferenças visíveis por fora são as duas tampas de abastecimento do híbrido, uma de cada lado no para-lama traseiro, e o radiador dianteiro, visível no fundo da entrada de ar inferior dianteira.
O interior segue a mesma lógica de simplicidade de linhas, só que o minimalismo é levado ao extremo. Os botões físicos são quase inexistentes, com exceção dos controles no volante. O console é dominado pela tela da central multimídia de 14,6 polegadas, que praticamente centraliza todas as configurações e comandos do modelo, de acionar os faróis e ajustar os espelhos. O painel de instrumentos é exibido em uma tela de 10,25 polegadas, como informações como velocidade, autonomia e consumo.
A Leapmotor International tem 51% das ações controladas pela Stellantis e 49% pela própria Leapmotor chinesa. Essa parceria garante à marca chinesa o acesso às redes de distribuição, vendas e infraestrutura do Grupo Stellantis na América do Sul. O que certamente facilita o trabalho de enfrentar marcas chinesas, que têm marketing agressivo e estão razoavelmente consolidadas nesse segmento de mercado, apesar do pouco tempo de atuação.
Ponto a ponto
Desempenho – Mesmo sendo grandalhão, o C10 surpreende positivamente pela boa disposição na hora de acelerar. Como propulsão 100% elétrica e 215 cv e 32,6 kgfm disponíveis de forma instantânea, arrancadas e retomadas não acusam as quase duas toneladas do modelo e a ausência de trocas de marchas dá um comportamento liso e progressivo ao modelo, sem buracos nos ganhos de velocidade nem retardo nas reacelerações. Além disso, a tração traseira torna as transferências de peso nas acelerações mais suaves. É um formato que atende bem à vocação familiar do modelo. Nota 8.
Estabilidade – A suspensão foi calibrada para privilegiar o conforto, com sói acontecer com um modelo familiar. Mas as duas toneladas de peso e a maciez do acerto acabam exigindo muito do conjunto em piso desnivelados e em buracos. Os cerca de 150 kg de bateria instalada entre os eixos rebaixam o centro de gravidade e ajudam no controle dos movimentos da carroceria, principalmente em um carro com 1,68 m de altura. A direção é leve nas manobras, mas é um tanto sintética, com uma comunicação excessivamente filtrada entre rodas e volante. Nota 7.
Interatividade – Esse é o ponto crítico da nova lógica de instrumentação, que chegou com os carros híbridos e elétricos. Há poucos controles físicos e excesso de comandos indiretos – alguns com diversas etapas para chegar à função desejada. Desde o ajuste ou o fechamento dos espelhos até acionar os faróis principais ou auxiliares, tudo é gerido através da tela da central multimídia. Nem mesmo o direcionamento da ventilação é de forma direta. Por outro lado, os sensores monitoram permanentemente o carro alertando sobre tudo que acontece, com direito a projeção no painel do trânsito no entorno. Um problema é a incapacidade de espelhar celulares da Apple ou com sistema Android, por limitações impostas pelo atual regime norte-americano. A Stellantis promete resolver essa falta nos próximos meses. Nota 7.
Consumo – A promessa de beirar 950 km de autonomia é bastante exagerada, até mesmo no ciclo para lá de otimista WLTP. Segundo o InMetro, o C10 percorre com o equivalente em gasolina 33,5 km/l na cidade e 29,1 na estrada, com notas A no geral e na categoria. Nota 10.
Conforto – A filtragem de pequenas irregularidades é eficiente, mas há limites claros para os desníveis maiores. Ou seja: é um carro de asfalto. E nesse ambiente, o C10 roda suave como uma limusine, com o silêncio característico de carros elétricos. O crossover da Leapmotor é recheado de recursos de conforto e os bancos são verdadeiras poltronas, que oferecem apoio adequado. Nota 9.
Tecnologia – O C10 usa a plataforma LEAP 3.0, uma arquitetura que integra as baterias arrefecidas por óleo ao chassi estrutural. Isso gerou uma rigidez torcional da ordem de 42,5 kNm/grau –cerca de 40% mais que um BMW X5 – e rendeu cinco estrelas nos testes da Euro NCap. Além disso, o modelo tem um pacote ADAS completo, com diversos sistemas de monitoramento, tela de 14,3 polegadas para a central multimídia e outra de 10,25 para o painel de instrumentos. De negativo, apenas o sistema de travas e ignição, feito por celular ou por cartão NFC, mas não por aproximação, que seria mais prático. Nota 9.
Habitabilidade – É um dos pontos altos do C10. Com entre-eixos de 2,83 m, teto alto e habitáculo largo, o espaço interno é digno de uma limusine. É extremamente generoso para pernas, cabeças e ombros em todos os assentos. O C10 traz ainda teto panorâmico com cortina elétrica e bons nichos para acomodar objetos. O console central elevado melhora a ergonomia e há detalhes como carregador de celular com resfriamento. O acesso é facilitado pela altura do veículo e o porta-malas de 435 litros, com compartimentos sob o piso atende bem. Nota 10.
Acabamento – A Leapmotor traz um interior de linhas limpas, com materiais de bom aspecto, mas sem a intenção de transmitir requinte ou luxo. Ele traz tons sóbrios de cinza e preto – há uma opção mais extrovertida, com interior caramelo –, revestimentos de couro sintético de boa qualidade (não ótima) e montagem de aparência robusta. Nota 8.
Design – Apesar de ter dimensões imponentes, o C10 tem linhas limpas e proporcionais. Os únicos pontos em metal aparente são as rodas e as letras de identificação do modelo. A aparência é assumidamente de crossover e não de SUV, com um perfil muito longo e a aparência de estar colado ao chão. Não há ousadia nem soluções de design criativas, o que é uma forma de evitar rejeição. Nota 8.
Custo/benefício – Esse é outro ponto em que o C10 se destaca. É um modelo muito completo e na versão híbrida briga em vantagem com os SUVs médios (C+) mais vendidos atualmente no segmento: BYD Song Plus e GWM Haval H6 PHEV19. Tem mais espaço, maior autonomia e menor preço. Além disso, conta com a infraestrutura da Stellantis. Nota 8.
Total –O Leapmotor C10 REEV obteve 84 dos 100 pontos possíveis.
Impressões ao dirigir
Experiência completa
O Leapmotor C10 é um crossover que chama a atenção. Não pelas linhas externas, que são limpas e simples. Mas pela imponência de suas dimensões. Se os carros fossem vendidos a metro, seria disparado o melhor custo/benefício do mercado. Por enquanto, é apenas o melhor custo/benefício do segmento de crossovers médios superiores – onde estão híbridos plug-in como Haval H6, Song Plus, Chery Tiggo 8 e Omoda 7.
Por dentro, o C10 mantém a racionalidade. Os materiais aparentam boa qualidade, mas não vendem a ideia de requinte. O visual é limpo e as linhas são limpas. O caso é que a limpeza atingiu em cheio os comandos físicos. Restaram apenas alguns botões no volante e os comandos de vidros elétricos nas portas. É preciso recorrer à tela central até mesmo para acionar os faróis ou fechar os espelhos – uma necessidade nem tão improvável em um carro com 2,13 metros de largura. O que salva é o botão coringa no volante, que pôde ser configurado para abrir o menu do espelho. Dessa forma, é preciso apenas dois comandos para realizar o feito. Em outros casos, são três ou quatro. Outro ponto negativo é a incapacidade de espelhar Apple CarPlay e Android Auto – coisa que a Stellantis promete resolver em breve.
Passado o estranhamento dos comandos modernos e pouco amigáveis – com uma semana de uso, toda essa rotina entra no automático –, é hora de usufruir de outras qualidades do C10. A primeira, que espanta todos que têm o primeiro contato com o carro, é o espaço interno muito, muito amplo. E ele é ainda valorizado pelo piso plano e pelo teto panorâmico. A impressão dos ocupantes não é de estar em um SUV, mas em uma minivan, daquelas bem espaçosas. Os bancos são também generosos em tamanho e contam com ajustes elétricos.
O C10 traz um verdadeiro arsenal de recursos ADAS, que vai de controle de cruzeiro adaptativo, monitoramento de faixa etc. Alguns deles, como a frenagem autônoma, podem se mostrar intrusivas demais. A ponto de interferir na condução, como acionar o freio em momento inapropriado. Essa é uma sintonia fina que os primeiros modelos da Stellantis também sofriam, mas passaram por uma sintonia fina. De qualquer forma, o C10 REEV é fiel à proposta de crossover familiar, com um desempenho vigoroso, mas sem qualquer pretensão esportiva. Ele acelera rápido, ganha velocidade com determinação e faz o zero a 100 km/h pouco acima dos 8 segundos sem acusar esforço.
O conjunto suspensivo absorve muito bem as irregularidades, com um rodar suave, e consegue controlar bem as rolagens, mesmo sendo macio. Contudo, encontra um limite nessa filtragem em trechos mais esburacados. Não é um modelo próprio para estradas de terra, mas é mais que adequado ao asfalto. Em suma, o C10 REEV é um carro para uso familiar, na cidade e na estrada, econômico, espaçoso, com boa dinâmica, muito confortável e preço bem competitivo no segmento.
Ficha técnica
Leapmotor C10 REEV
Motor a combustão (gerador): Gasolina, ciclo Atkinson, aspirado, transversal, dianteiro, com 1.499 cm³, quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro e comando duplo no cabeçote. Injeção multiponto.
Potência: 88 cv a 5 mil rpm.
Torque: 12,7 kgfm a 4.500 rpm.
Diâmetro X curso: 73,5 x 88,3 mm.
Taxa de compressão: 15,3:1.
Capacidade do reservatório de combustível: 50 litros.
Motor Elétrico (propulsor):Traseiro, transversal, síncrono com ímã permanente. Tração traseira.
Potência: 215 cv.
Torque: 32,6 kgfm.
Transmissão: Automática com uma relação de 11,36:1 reversível ligada diretamente ao diferencial traseiro.
Aceleração 0-100 km/h: 8,2 segundos.
Velocidade máxima: 170 km/h.
Bateria: Fosfato de ferro-lítio, instalada no assoalho entre os eixos com arrefecimento líquido, tensão de 400 V e capacidade de carga de 28,4 kWh.
Recarga: 6,6 kW em corrente alternada e 65 kW em corrente contínua.
Carroceria: Crossover médio com quatro portas e cinco lugares. Com 4,74 metros de comprimento, 1,90 m de largura, 1,68 m de altura e 2,83 de distância entre-eixos. Altura mínima para o solo de 18 cm. Ângulo de 17º de ataque e de 23º de saída. Airbags frontais, laterais e de cabeça de série.
Suspensão: Dianteira tipo McPherson com rodas independentes, amortecedores hidráulicos, molas helicoidais e barra estabilizadora. Traseira multilink com barra estabilizadora, rodas independentes, amortecedores hidráulicos e molas helicoidais.
Freios: Dianteiros e traseiros com discos ventilados e sistema de frenagem regenerativa integrado. ABS com controle de partida em rampa e controle de estabilidade.
Pneus: 245/45 R20.
Peso: 1.976 kg em ordem de marcha com 434 kg de capacidade de carga.
Porta-malas: 435 litros.
Lançamento: novembro de 2025.
Produção: Zhejiang, China.
Preço: R$ 219.990.
















