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Entrevistas Sexta-feira, 26 de Abril de 2024, 09:05 - A | A

26 de Abril de 2024, 09h:05 - A | A

Entrevistas / Cinco Perguntas

Drama de alerta

Mais focada em séries, Julia Lemmertz se surpreende com densidade e realidade do texto de "Justiça 2"



por Geraldo Bessa TV Press

Julia Lemmertz tem sido um pouco mais criteriosa com os convites que tem recebido na tevê. Distante das novelas desde de "Quanto Mais Vida, Melhor!", que terminou no início de 2022, a atriz parece ter urgência de contar histórias um pouco mais profundas e que não exijam tanto tempo de entrega.

"Já fiz muita novela na vida. Estou curtindo fazer séries, variar personagens, intenções e complexidades. É um caminho saudável e diverso", avalia a atriz, que, nos últimos dois anos, gravou as séries "Chuva Negra" e "No Ano que Vem", do Canal Brasil, além de "Justiça 2", atual sucesso do Globoplay.

Na série antológica de Manuela Dias, Lemmertz vive Júlia, uma mulher que carrega a culpa de não ter enxergado o sofrimento da própria filha, Carolina, de Alice Wegmann, dentro de casa. Ainda menor de idade, a menina foi vítima de abuso sexual cometido por Jayme, seu tio, irmão de sua mãe e provedor da família, papel de Murilo Benício.

"Esse trabalho é muito carregado de realidade, como se fosse um sinal de alerta. Infelizmente, é um caso muito possível e comum. A gente apresenta a situação e espera que as pessoas se reconheçam e façam algo a partir disso", torce. Filha dos atores Lineu Dias e Lilian Lemmertz, a atriz consegue, aos 61 anos, ter uma visão crítica e sem tantas doses de saudosismo sobre a carreira.

"Sempre fiz o que quis. Acho que isso acabou fazendo com que eu criasse uma relação muito sincera com o teatro, o cinema e a televisão", conta. A estreia no vídeo foi aos 18 anos, em 1981, como uma das protagonistas de "Os Adolescentes", da Band. Com passagem pela extinta Manchete, foi na Globo que Lemmertz acabou sedimentando sua carreira, em produções como "Porto dos Milagres", "Celebridade", "Fina Estampa" e "Além do Tempo".

"Televisão pode ser muita coisa ao mesmo tempo. É possível variar entre produções mais comerciais e artísticas e todo mundo sai ganhando. Quando digo que vou me afastar por um tempo, aparece um convite irresistível", destaca, entre risos.

P - O êxito da primeira temporada de "Justiça" acabou alimentando grandes expectativas para o retorno da série. Como você se envolveu com o projeto?

R - Eu fiquei muito surpresa com esse convite. Não é o que geralmente me oferecem na tevê. Há tempos que eu observava o texto da Manuela (Dias, autora) e adorei a possibilidade de trabalhar com ela. Quando eu li o roteiro e fui me inteirando sobre a personagem, fui me envolvendo e me surpreendendo com a força do universo da série. Foi como um soco no estômago.

Nada é simples e essa inércia dela me pegou de um jeito muito específico

P - Em que sentido?

R - "Justiça" toca em temas espinhosos de um jeito muito próprio, mostrando o lado controverso, esquisito, perverso da humanidade. É uma série muito crua, muito forte, mas bonita porque em algum lugar existe uma esperança. Uma esperança de justiça. Os personagens lutam por isso. A Júlia, minha personagem, por exemplo, fecha os olhos para o óbvio, mas não fica tranquila com isso. Na verdade, ela adoece, meio que apodrece por dentro.

P - Como foi a construção para a Julia?

R - Foi um processo muito coletivo. As indicações do texto e da direção me ajudaram bastante. Fui descobrindo essa mulher aos poucos e reagindo de acordo com o caminhar da história. A Manuela não joga no público tudo de cara. A Júlia, por exemplo, de fato não tem certeza se o irmão abusou da filha. Por uma série de questões, ela tentou de todas as formas bloquear essa informação por acreditar que isso não seria possível, que ele não seria capaz.

P - Você acha que essa atitude transforma a Julia em uma espécie de algoz da própria filha?

R - Não é tão fácil assim. A personagem fica doente quando vai descobrindo o que realmente aconteceu. Seria mais fácil se ela soubesse, negasse e pronto. Mas ela reside na dúvida, em não querer acreditar, em querer fazer algo e não conseguir, querer cuidar da filha, mas entende que o mal já está feito. Nada é simples e essa inércia dela me pegou de um jeito muito específico.

P - Como assim?

R - Eu sempre fui do tipo que separa muito bem casa e trabalho. Mas, dessa vez, acho que pela força com que a temática do abuso sexual mexe com mulheres, eu falhei. Saía pesada das gravações e isso influenciava o lado pessoal também.  Foi o trabalho mais difícil que já fiz na tevê. Por sorte, os bastidores de "Justiça 2" foram recheados de carinho, compreensão e alinhamento. Tive um encontro artístico lindo com a Alice (Wegmann), reencontrei colegas queridos e fiz diversas novas amizades.

  "Justiça 2" - Globoplay - novos episódios às quintas.

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