Eduardo Rocha/Auto Press
Com o 208 Hybrid, a Peugeot passa a ter o único hatch compacto com sistema híbrido leve do mercado, com o objetivo de recuperar o prestígio que tinha no Brasil na primeira década do Século XXI. Na virada para o ano 2000, o mercado se encantou com o hatch 206, que marcou o início da produção da marca no país. A fase de baixa começou com um facelift tardio do 206, em 2009, vendido por aqui como se fosse o novo 207, enquanto um 207 realmente novo circulava na Europa. Isso provocou uma quebra de confiança entre a marca e consumidores que resultou em uma forte perda de mercado. Agora, como parte da Stellantis, adotou os motores GSE produzidos na fábrica do Grupo em Betim e compartilhou a expertise comercial da Fiat.
O hatch 208 de segunda geração até ia bem, com picos de venda acima de 2 mil unidades/mês, até que a fábrica de El Palomar, na Argentina, passou a enviar o SUV 2008 de segunda geração no final de 2024, que aumentou as vendas da marca, mas derrubou os emplacamentos do hatch. Em 2025, o 208 equilibrou um pouco as coisas, especialmente após a chegada da versão híbrida em setembro do ano passado. Atualmente, a única versão do 208 que oferece a tecnologia híbrida leve é a avaliada GT, que mesmo sendo a mais cara da gama, responde por cerca de 20% das vendas, com médias de 170 unidades/mês. O 208 GT Hybrid tem a função de vitrine de uma linha de compactos com visual bastante atraente. No face-lift apresentado no final de 2024, o hatch trocou o filete de led único que se alongava a partir do farol, chamada de dente de sabre, por três filetes colocados em um nicho abaixo do farol. O para-choque foi redesenhado para acomodar também a nova grade, que ficou maior, mas se manteve sem moldura. Nas laterais, rodas com novos desenhos, molduras nos para-lamas e a inscrição “GT” na coluna traseira. Atrás, as lanternas na guarnição que corre toda a base do vidro tiveram as luzes reformatadas. A tampa recebe a identificação “208” de um lado e “Hybrid Turbo 200” do outro.
A tecnologia consiste em um motor elétrico que funciona tanto como alternador quanto como propulsor, que também substitui o motor de arranque. Ele está ligado fisicamente ao motor a combustão e a alimentação do sistema é promovida por duas baterias de 12 V: uma normal, de 68 Ah, e outra sólida, de íon de lítio. A central eletrônica coordena a ação de cada um dos elementos desse conjunto, sem qualquer intervenção do motorista.
O sistema híbrido utilizado pelo 208 é exatamente o mesmo aplicado nos Fiat Pulse e Fastback – e também no SUV da marca, 2008. Nele, o motor elétrico não movimenta o carro, mas alivia o trabalho do motor a combustão em momentos críticos, como arrancadas e retomadas em regimes entre 1.500 e 3 mil rpm, quando pode contribuir com até 25% do esforço. Por isso, desempenha melhor nas cidades. Essa ajuda é de 4 cv e 1 kgfm, que aparecem nesses momentos em que o motor a explosão não está pleno.
Apesar da estética atraente, tecnologia híbrida, motorização eficiente e dinâmica agradável, o Peugeot 208 bri com alguns fantasmas que rondam a marca, principalmente em relação à confiabilidade. Ao compartilhar a mecânica usada pela Fiat e pela Citroën no Brasil, é uma questão de tempo para que a imagem da marca se valorize. Mas um ponto fundamental para isso será a produção do novo 3008 em Goiana, Pernambuco, já que o novo SUV médio vai compartilhar arquitetura e motores com o novo Jeep Compass.
Ponto a ponto
Desempenho – O sistema híbrido interfere muito discretamente na entrega de potência em baixos giros do motor GSE 1.0 Turbo de três cilindros. Com potência de 125/130 cv e torque de 20,4 kgfm, ele lida com sobra com os 1.167 kg do 208 GT com sistema híbrido leve, que adiciona 8 kg ao modelo. A relação peso/potência, em torno de 9 kg/cv, garante que seja ágil e ganhe velocidade rápido – o zero a 100 km/h é feito em menos de 9 segundos. Mesmo com bom desempenho, ainda não oferece um comportamento esportivo. Inclusive porque o câmbio CVT também tira um pouco da responsividade. No entanto, não há sensação de falta de potência em nenhuma faixa de giro. Nota 8.
Estabilidade – O 208 é o chamado carro de carpete, pensado para rodar nas estradas de alta qualidade da Europa ou mesmo da Argentina, onde é produzido. Molas e amortecedores são rígidos e até compensam um pouco a elevação da altura livre para o solo para evitar a rolagem da carroceria. Com isso, consegue enfrentar um pouco melhor as más condições das vias locais e ainda manter a capacidade de enfrentar as curvas. Ainda que toda esta equação tenha efeitos colaterais no conforto dos ocupantes. Nota 8.
Interatividade – A interface do painel i-Cockpit 3D é agradável, mas a ideia de manter os instrumentos acima do volante gera situações como volante pequeno demais e mais baixo que o desejável. Há também alguma insistência das marcas francesas em usar comandos satélites atrás do volante, conceito antigo e pouco prático – até porque o volante atrapalha a visualização dos comandos. No mais, o 208 traz o trivial para um compacto de topo, como multimídia funcional e sensor de obstáculo na traseira com câmera de ré. Nota 7.
Consumo – Os números obtidos pelo 208 com o motor Turbo 200 com sistema híbrido melhoraram de forma sutil. Com etanol, o consumo foi de 8,3 para 9,1 km/l na cidade e até piorou na estrada, indo de 9,7 para 9,6 km/l. Com gasolina, melhorou tanto na cidade, indo de 12,0 para 13,0 km/l, quanto na estrada, passando de 13,7 para 13,8 km/l. Isso mostra que o sistema híbrido só é eficiente mesmo em baixos giros, ou seja, em uso urbano. As notas ficaram em B na categoria e em C no geral. Nota 7.
Conforto – O 208 tem bancos ergonômicos e confortáveis e o ambiente é agradável, mas conforto fica um pouco comprometido pelo acerto à moda europeia, mais rígido. O carro bate seco em buracos e desníveis, partes integrantes de ruas e estradas brasileiras. Por outro lado, os bancos são macios e ergonômicos. Nota 7.
Tecnologia – O visual do 208 reforça a ideia de carro tecnológico, o que é reforçado pelo design ousado e moderno. No interior, o destaque é o painel chamado de i-Cockpit 3D. A plataforma é também bem moderna. Agora, com o propulsor híbrido Turbo 200, tem um desempenho à altura. Mas a versão de topo, GT, merecia apresentar mais equipamentos. Traz itens como faróis em led, sensor e câmera traseira e um pacote ADAS básico, com monitor de faixa e alerta de colisão com frenagem automática, mas sem controle de cruzeiro adaptativo. Nota 7.
Habitabilidade – O 208 foi pensado como um carro de jovens solteiros ou, no máximo, casais jovens sem filhos. E nessa proposta, ele está muito bem resolvido. No Brasil, esse conceito limita um pouco o mercado do modelo, já que por aqui qualquer carro deve funcionar como carro da família. Na frente, os ocupantes são bem recebidos, mas o espaço no banco traseiro é bem limitado, tanto para os joelhos quanto na altura. O porta-malas, com 265 litros, também não impressiona. Nota 6.
Acabamento – O acabamento da versão testada, GT, já não é tão caprichado quanto na época do lançamento, ainda é de boa qualidade e nivelado aos melhores hatches compactos. Forração em couro nos bancos, no câmbio e volante, revestimento no console frontal de boa qualidade, imitando fibra de carbono, que se estende para os painéis das portas, detalhes em alumínio e em preto brilhante e elementos em couro. Nota 9.
Design – É o ponto alto do 208. O compacto da Peugeot criou uma referência de design da marca quando foi lançado e hoje este conceito está em toda a linha de carros de passeio da marca. E manteve essa condição mesmo após o facelift promovido em 2023 na Europa e em 2024 na América do Sul. As linhas são equilibradas, sofisticadas, ousadas e esbanjam personalidade. Os conjuntos óticos tridimensionais com referências a felinos, a grade moderna e agressiva, tudo remete o 208 para o futuro. Nota 9.
Custo/benefício – O preço de R$ 136.490 deixa o hatch ligeiramente mais caro que rivais compactos de topo sem sistema híbrido, como Volkswagen Polo Highline, Hyundai HB20 Platinum Plus e Chevrolet Onix Premier. Por um lado, é o menos espaçoso e traz menos equipamentos que estes rivais, mas em compensação é o único com sistema híbrido leve – que pode render vantagens fiscais. Nota 7.
Total – O Peugeot 208 somou 75 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir
Conceito jovem
A não ser pela discreta plaqueta na tampa traseira, quase nada no Peugeot 208 GT denuncia sua condição de híbrido leve. Nem no visual, nem no comportamento dinâmico. A rigor, mesmo em relação à eficiência, a diferença é sutil: em condições perfeitas de uso, ele pode ser até 10% mais econômico em uso urbano. Na estrada, não há diferença alguma. Obviamente, o sistema híbrido pode trazer vantagens fiscais em determinadas jurisdições, mesmo sendo um modelo importado da Argentina.
De qualquer forma, o modelo conta com o moderno motor GSE Turbo 200, um propulsor moderno, com válvulas de admissão controladas pelo sistema eletro-hidráulico MultiAir, comandado por um câmbio CVT. Ele rende 125/130 cv e 20,4 kgfm. O conjunto tem uma programação intermediária, para combinar desempenho e economia. Dinamicamente, o típico turbo lag que costuma aparecer nesse trem de força é minimizado, tanto pelo auxílio do sistema elétrico quanto pelo baixo peso do modelo, que gera uma relação peso/potência de 9 kg/cv – que sustenta uma ótima aceleração de zero a 100 km/h em 8,6 segundos. Nas curvas, as suspensões firmes oferecem um controle de carroceria muito bom.
O habitáculo é marcado pelo conceito i-Cockpit 3D, com um volante pequeno para que o painel seja olhado por cima do volante. Isso obriga uma posição de banco mais alta, com rebaixamento do volante, que já é pequeno demais. Não é a combinação mais ergonômica. Além disso, os famigerados comandos satélites – para controle de cruzeiro à esquerda e do som à direita – se escondem atrás dos raios do volante.
A central multimídia com tela flutuante, por outro lado, é bem posicionada e eficiente – como todas Uconnect, da Stellantis. Em relação ao conteúdo, o 208 GT não impressiona muito. Tem um pacote ADAS básico, sem controle de cruzeiro adaptativo, sensor apenas traseiro, com câmera de ré, chave presencial, teto panorâmico, carregador por indução e rodas de liga aro 17 e acabamento em couro.
O ambiente tem um acabamento bem cuidado, com materiais agradáveis e boa montagem, mas não tem o requinte esperado de um Peugeot – embora, diante dos compactos rivais, seja o de melhor nível. Por dentro, o 208 é generoso com os passageiros da frente e um tanto rigoroso com os traseiros. Na frente, os bancos são bem estruturados e confortáveis. Atrás, são um pouco duros, o passageiro fica afundado e há pouco espaço para pernas e cabeça. A ideia do projeto nunca foi de criar um modelo para a família, mas sim para solteiros, jovens casais. E essa jovialidade é sustentada pelo visual moderno, charmoso e atraente.
Ficha técnica
Peugeot 208 GT Hybrid Turbo 200
Motor a combustão: Gasolina e etanol, dianteiro, transversal, 999 cm³, três cilindros em linha, sobrealimentado por turbocompressor com wastegate elétrica e quatro válvulas por cilindro. Comando de válvulas no cabeçote por sistema eletro-hidráulico MultiAir na admissão e por eixo de comando simples no escape. Injeção e acelerador eletrônicos.
Motor elétrico: De 12 V com 3 kWh (4,08 cv) de potência e 1,02 kgfm de torque. Dianteiro transversal acoplado mecanicamente ao motor a combustão com funções de arranque, propulsão e gerador, alimentado por uma bateria auxiliar de íon de lítio de 0,132 kWh.
Potência máxima: 125/130 cv a 5.750 rpm com gasolina/etanol.
Torque máximo: 20,4 kgfm a 1.750 rpm com gasolina/etanol.
Transmissão: Câmbio CVT com acoplamento por conversor de torque com 7 velocidades pré-programadas à frente e uma a ré. Tração dianteira.
Aceleração 0-100 km/h: 8,6/9,0 segundos.
Velocidade máxima: 205 km/h.
Diâmetro e curso: 70,0 mm X 86,5 mm. Taxa de compressão: 10,5:1
Suspensão: Dianteira do tipo McPherson independente com molas helicoidais e amortecedores hidráulicos. Traseira com eixo rígido com molas helicoidais e amortecedores hidráulicos.
Pneus: 205/45 R17.
Freios: A disco ventilado na frente e disco sólido na traseira com ABS e EBD.
Carroceria: Hatchback compacto em monobloco com quatro portas e cinco lugares. Com 4,06 metros de comprimento, 1,74 m de largura, 1,45 m de altura e 2,54 m de distância entre-eixos. Altura mínima do solo de 16,5 cm. Oferece airbags frontais e laterais.
Peso: 1.167 kg.
Capacidade do porta-malas: 265 litros.
Tanque de combustível: 47 litros.
Produção: El Palomar, Argentina.
Lançamento no Brasil: agosto de 2024.
Preço da versão GT Hybrid Turbo 200: R$ 136.490.
Opcionais: Pintura metálica (R$ 2 mil).














