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Atualidades Sexta-feira, 07 de Junho de 2019, 00:00 - A | A

07 de Junho de 2019, 00h:00 - A | A

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Extinção de Tracajá preocupa povos indígenas de etnias do rio Teles Pires



José Vieira do Nascimento
Editor Mato Grosso do Norte

Índios de aldeias localizadas nas margens do rio Teles Pires estão preocupados com o futuro do tracajá, espécie que está ameaçada de extinção. Em busca de alternativas para fazer enfrentamento a esta situação, é que está sendo realizado na Faculdade de Alta Floresta - Uniflor um curso de 40 horas [iniciado na segunda-feira, 3, e com encerramento nesta sexta-feira], com participação de 44 professores índios e professores da rede estadual de Educação que trabalham nas aldeias.
O curso ensina aos indígenas práticas de manejo de Quelônios para a preservação do Tracajá.  A oficina é desenvolvida através de parceria entre a Uniflor, usina são Manoel, com a coordenação da empresa Naturae, que desenvolve um programa de preservação ambiental e Manejo de Quelônios no rio Teles Pires, contratada pela São Manoel. 
Durante a semana, os professores das etnias dos Kayabi, Munduruku e Apiaká, receberam informações a respeito do Meio Ambiente, sobre a importância de saber usar de forma sustentável a floresta. Os coordenadores da oficina mostraram que, para evitar a escassez dos recursos naturais, é preciso aprender a conhecer o Meio Ambiente.
O professor e indígena Ismael Hay, relata que os povos indígenas estão sendo afetados nos últimos 7 anos, pelo lixo que são depositados no rio, que está causando a morte de peixes e dos Quelônios. Ele também cita o esgoto produzido pela usina hidrelétrica. 
Após a construção das usinas hidrelétricas, Ismael afirma que se tornou comum peixes mortos e animais aparecerem boiando na correnteza do rio Teles Pires. “Isto tem preocupado a sociedade indígena dos Munduruku, Apiaká e os Kaiabis. Viemos para este curso com foco no manejos dos Quelônios, mas acabamos aprendendo muito sobre Meio ambiente. E este aprendizado, para nós professores, é importante para repassar para nossas crianças. Temos que cuidar do nosso ambiente, porque é nossa área, onde também viveram nossos antepassados”, disse.
O professor Arlindo, da aldeia Kururuzinho, afirma que os índios pretendem desenvolver um projeto para preservar o Tracajá. Segundo ele, a espécie está acabando, porque as usinas construídas no rio Teles Pires, tem destruído seu habitat. 

“Hoje o Tracajá diminuiu bastante. Por isso temos que fazer um projeto para preservá-lo, criar e soltar novamente no rio para que possam se reproduzir. Senão ele vai acabar”, observa.

A professora da Uniflor, Maria de Lurdes Cantarelli, uma das palestrantes da oficina, afirma que a meta é reparar um pouco os prejuízos trazidos pelas tecnologias, que são necessárias, mas que também trazem prejuízos. “Eles estão tentando buscar soluções e encontrar formas de fazer estes reparos”, disse.
Todavia ela explica que o tracajá faz parte de uma cadeia alimentar, e não são apenas os índios que os usam em sua alimentação. Animais ferinos, como as onças, também se alimentam deles. 
Vitor Hugo Cantarelli, do Sistema Naturae [empresa consultora de Meio Ambiente, contratada pela usina são Manoel, para cuidar da área ambiental no licenciamento da hidrelétrica] responsável técnico do programa ambiental e manejo de Quelônios do rio Teles Pires, alerta que há risco de extinção e em muitos locais já não existe Tracajá.
Ele destaca que para os Quelônios serem preservados, é necessário que os povos indígenas tenham consciência ambiental. Desta forma, destaca a importância de desenvolver uma mentalidade na população indígena, diferente do que se tem hoje. 
“O tracajá está desparecendo porque o consumo dele vem de várias décadas, sem que houvesse uma preocupação em preservar a espécie. O tracajá faz parte da cultura alimentar dos índios, mas hoje está faltando. Em muitos lugares praticamente desapareceu. As oficinas que estamos realizando, orientam para que os índios aprendam a se relacionar com o Meio Ambiente e eles mesmos passem a fazer o trabalho de manejo dos Quelônios”, observa Vitor Hugo.
Conforme Vitor Hugo, a construção das usinas contribuem com o agravamento da situação, mas não são as únicas responsáveis para o desaparecimento do Tracajá. “As barragens mudam fluxo genético, influenciam a sobrevivência do peixe, a qualidade da água e muitas espécies terão que se readaptar”, diz. 
Porém, ele disse que os índios terão que aprender a respeitar o ciclo de reprodução dos Quelônios. “É um longo aprendizado. O que aconteceu  é que durante muitos anos, comeram o tracajá adulto, o ovo e os filhotes, impedindo a reprodução.  Eles tem que mudar o comportamento, abrir a cabeça e entender que se não fizeram alguma coisa, irão perder esta alimentação, porque a espécie vai acabar”, enfatiza. 

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