POR MÁRCIO MAIO/TV PRESS
“Coração Acelerado” reservou para Thomás Aquino um lugar, mesmo sem ser central, é decisivo para o andamento da novela das 19h da Globo. Na pele de Ronei Soares, empresário do astro sertanejo João Raul, papel de Filipe Bragança, Thomás encarna justamente a figura que mantém o espetáculo girando – mesmo que seja às custas do desejo, da autonomia e da própria identidade do artista que administra.
Não se trata apenas de um antagonista clássico: Ronei é apresentado como um homem que não distingue limites quando o assunto é poder. “Independentemente de com quem ele trabalha, Ronei quer dinheiro, quer que a Roney Music tenha um sucesso eterno”, define Aquino.
A trama gira em torno do amor de João Raul e da mocinha Agrado, papel de Isadora Cruz. Porém, desloca o conflito também para além do romance central, tocando em uma crítica direta ao modelo de gestão que normaliza abusos, silenciamentos e relações desiguais – algo que, infelizmente, acontece no meio da música.
“Acho que a novela mostra o que a gente não pode repetir”, resume o ator, ao associar seu personagem a casos reais de artistas que romperam judicialmente com seus empresários.
Embora “Coração Acelerado” seja uma comédia romântica musical, o texto não evita temas espinhosos. Ao contrário: eles são diluídos com humor e leveza, mas sem esvaziamentos. Para Aquino, essa escolha não é casual.
“Batemos nesse machismo que ficou caracterizado por muitos anos em nossa cultura e que temos de quebrar”, exemplifica. Segundo ele, o diferencial do folhetim está justamente na abordagem.
“Por ser uma novela das 19h, a gente trabalha isso de uma forma leve, cômica, mas existe uma filosofia por trás do que as autoras escrevem”, garante.
Para dar corpo a Ronei, o ator optou por uma pesquisa de campo intensa. “Comecei a entrar um pouquinho mais nesse universo do sertanejo. Escutei muito os clássicos e fui a shows para entender os bastidores”, conta.
A imersão revelou um universo mais complexo do que o brilho dos palcos sugere
O contato com empresários, músicos e produtores ajudou a construir o tom do personagem. “Comecei a perceber o linguajar, a malícia, o tom… gosto mais de estar presente do que somente ler ou ver um vídeo”, defende.
Nesse processo, uma colaboração inesperada acabou se tornando decisiva. O cantor Luciano, da dupla Zezé Di Camargo & Luciano, convidou Aquino para acompanhar um show após assistir ao trabalho do ator em “Guerreiros do Sol”.
“Ele falou: ‘quero ver você num show meu’. Fui ao camarim, a gente conversou e ele me ajudou com o personagem”, relembra. Para o ator, o gesto teve peso simbólico. “Me deixa muito feliz ele assistir a novelas, consumir esse tipo de arte”, diz.
A imersão revelou um universo mais complexo do que o brilho dos palcos sugere. “Me surpreendeu a disposição dos cantores, das cantoras, o foco… o quanto essas pessoas abrem mão de certas coisas para se doar ao público”, observa. Aquino reconhece ali uma identificação direta com o próprio ofício. “Eu também faço isso enquanto ator. Abdico de algumas coisas para fazer o meu melhor trabalho”, assegura.
Essa consciência atravessa também a forma como o telespectador reage ao seu momento atual na televisão. Após o remake de “Vale Tudo”, exibido até outubro, o reconhecimento se ampliou.
“A tevê aberta ainda alcança um público que populariza mais os artistas do que os streamings ou o cinema”, compara. Para ele, a exposição não é um risco, mas parte do jogo. “Não preciso estar pensando em descansar a imagem”, opina.
“Coração Acelerado” – Globo – Segunda a sábado, na faixa das 19h.
Foto/ Divulgação
Outras lutas
Se em “Coração Acelerado” Thomás Aquino atua no território do mercado musical contemporâneo, em “Guerreiros do Sol” ele se desloca para o épico histórico. Disponível no Globoplay e já exibida pelo canal Globoplay Novelas, a obra o traz como Josué, líder de um bando de cangaceiros inspirado em figuras reais do sertão nordestino. “Ele é um homem obstinado, focado e de palavra, numa época em que a palavra valia mais do que qualquer outra coisa. É uma pessoa muito íntegra, mas também é composto por dois lados quase opostos: o doce e o amargo”, define.
Mais do que um papel, o trabalho carrega um valor identitário. “Enquanto pernambucano, protagonizar uma história com essa persona só me encanta, me engrandece”, afirma.
Para Aquino, dar visibilidade a esse universo é também um gesto político e cultural. “É uma honra mostrar como o Nordeste é rico em cultura e a importância do Cangaço para a região”, atesta ele, que fez par romântico justamente com Isadora Cruz, a determinada Agrado de “Coração Acelerado”, em “Guerreiros do Sol”. “Estar com a Isadora novamente é sempre um grande presente”, derrete-se.
Instantâneas
# Thomás Aquino nasceu em Recife, em Pernambuco, e fará 40 anos em abril.
# Ganhou projeção nacional e internacional com o filme “Bacurau”, lançado em 2019, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.
# Antes de se consagrar como ator, Thomás fez malabares de rua e deu expediente como Papai Noel em shoppings.
# No streaming, ele está no elenco de “Manhãs de Setembro” (Prime Video), “Os Outros” (Globoplay), “DNA do Crime” (Netflix) e “Vidas Bandidas” (Disney+).








