POR CAROLINE BORGES/TV PRESS
Assumir o papel de protagonista em “Dona Beja” não foi apenas um desafio artístico para André Luiz Miranda, mas uma experiência que atravessou sua própria história. Mais do que interpretar, ele precisou sentir na pele a dor e a força de um personagem marcado pela memória de atrocidades vividas por seus ancestrais.
“O texto é a espinha dorsal de qualquer obra, mas nesta novela ele ganha um protagonismo especial. É o texto que move os atores, a direção, toda a engrenagem. Ele nos dá poder, porque nos permite discutir temas relevantes, nos dá ferramentas para provocar o público e contribuir para uma sociedade melhor. Trabalhar em uma obra onde o texto é tão forte é um privilégio, porque ele nos guia e nos desafia ao mesmo tempo. É como se cada palavra tivesse um peso e uma responsabilidade”, aponta.
Na nova versão do folhetim, André dá vida ao advogado João Carneiro de Mendonça, um dos personagens centrais da trama, que é apaixonado por Dona Beja, papel de Grazzi Massafera, e se torna rival de seu então amigo de infância, Antônio Sampaio, de David Junior, na disputa pelo amor da dona do bordel.
Ser protagonista é carregar uma responsabilidade enorme. O protagonista dita o ritmo, a temperatura, a intensidade do projeto
“É um projeto pioneiro, por reunir tanta diversidade e colocar tantas pessoas pretas em funções onde, muitas vezes, não somos enxergados”, ressalta.
P – A trama de “Dona Beja” marca sua estreia no posto de protagonista nas novelas. Que peso essa responsabilidade trouxe para você dentro e fora da trama?
R – Ser protagonista é carregar uma responsabilidade enorme. Não é apenas sobre o personagem em si, mas sobre a energia que ele imprime em toda a obra. O protagonista dita o ritmo, a temperatura, a intensidade do projeto. Para mim, foi um desafio gigantesco, porque além da responsabilidade artística, havia também uma carga histórica. Dar voz a um personagem que carrega a memória de atrocidades vividas pelos meus ancestrais foi doloroso em muitos momentos. Não é apenas interpretar, é sentir na pele, é viver aquilo. E isso exige muito preparo emocional, mas também traz uma força transformadora.
P – O que mais encantou você na proposta de viver João Carneiro?
R – João é um personagem que me emociona profundamente. Ele nasceu de um amor verdadeiro, em uma época em que casamentos arranjados e dotes eram comuns. Isso já o torna especial: ele é fruto de afeto genuíno. Cresceu cercado de carinho, com um olhar limpo para as pessoas. É alguém que não tem medo de dizer o que sente, que luta pelos seus ideais, que viveu uma infância bonita e cheia de afeto. João representa um amor puro, uma força que vem da honestidade emocional. Eu sou apaixonado por esse personagem porque ele mostra que vulnerabilidade e coragem podem andar juntas.
P – A trama mostra três amigos de infância com o mesmo objetivo, mas pensamentos diferentes. O que essa relação simboliza para você?
R – Essa relação é muito simbólica. Historicamente, pessoas pretas foram colocadas no mesmo bolo, como se pensassem todas da mesma forma, como se não houvesse diversidade de ideias entre nós. A novela quebra esse estigma ao mostrar três amigos que compartilham o mesmo objetivo, mas têm visões diferentes sobre como alcançá-lo. Isso é poderoso porque mostra que somos múltiplos, diversos, e que nossas diferenças não nos afastam, mas nos fortalecem. Essa parceria traduz bem a ideia de que podemos caminhar juntos, mesmo com pensamentos distintos, e que essa pluralidade é parte da nossa riqueza cultural e humana.
P – Atualmente, você vive a experiência de gravar “A Nobreza do Amor”, próxima das seis da Globo, em que o roteiro se molda muito ao que os atores entregam e às impressões do público. Agora, em Dona Beja, no streaming, a obra já nasceu toda escrita, com arco definido. Como você enxerga essa diferença entre os dois formatos e o impacto que isso tem na construção dos personagens?
R – Na tevê aberta, existe uma dinâmica muito viva: o autor tem uma ideia inicial dos personagens, mas essa ideia vai se moldando conforme o ator entrega nuances diferentes e também conforme o público reage. Muitas vezes, o que estava planejado se transforma completamente, porque o ator imprime uma verdade que leva o personagem por outro caminho. Além disso, a audiência influencia diretamente: se uma trama ou personagem desperta grande interesse, isso pode mudar o rumo da história. Já no streaming, o processo é mais fechado. A novela nasce com o arco dramático definido, o que permite trabalhar camadas e construir uma narrativa sólida do início ao fim. Mas há um risco: quando tudo está escrito, pode-se revelar demais sobre o futuro do personagem, e isso tira um pouco da surpresa que a tevê aberta proporciona.
P – Apesar de ser uma trama de época, “Dona Beja” carrega discussões atuais. Qual é a importância de trazer esses debates para diante das câmeras?
R – É fundamental. Nós vivemos em uma sociedade que ainda carrega marcas profundas de machismo, racismo, transfobia, gordofobia e tantas outras formas de preconceito. A novela tem um papel social importante porque coloca essas questões em debate, expõe feridas que ainda não cicatrizaram. Quando o público se vê refletido na tela, percebe que esses problemas não ficaram no passado, eles continuam acontecendo. A arte tem esse poder de provocar reflexão e, ao mesmo tempo, de gerar empatia.
“Dona Beja” – Capítulos disponíveis na plataforma HBO Max.








