Márcio Maio/ TV Press
Em “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, minissérie da HBO Max dirigida por Andrucha Waddington, Emilio Dantas ocupa um lugar delicado e central: o do homem que interrompeu uma vida e cuja violência foi, por décadas, relativizada por um sistema conivente. Ao interpretar Doca Street, o ator opta por uma construção contida, consciente e marcada por ausências. Uma escolha que, na verdade, dialoga diretamente com a proposta ética da obra.
“Eu interpreto o Doca Street, que interrompeu essa história. Acho que isso é o máximo que dá para dizer”, afirma, delimitando com precisão o espaço do personagem na narrativa.
Mais do que revisitar um crime ocorrido há quase 50 anos, Emilio enxerga a série como um gesto necessário no presente. Para ele, o tempo não suavizou as estruturas que sustentaram o feminicídio de Ângela Diniz.
“É uma grande honra fazer parte da galera que está contando essa história. E já passou do tempo de ser contada”, diz. A partir daí, sua reflexão avança para um terreno inquietante: o da atualização simbólica do agressor.
Eu não queria, de jeito nenhum, assumir a responsabilidade de entregar o que o Doca estaria sentindo no momento daqueles tiros
“É necessário entendermos que esse Doca, hoje, estaria no Congresso. Esse Doca hoje teria uma equipe de marketing agindo junto com ele”, provoca, deslocando o debate para a atualidade.
Essa leitura se estende também à forma como mulheres livres continuam sendo julgadas. Para o ator, não se trata apenas de olhar o passado com os olhos do presente, mas de reconhecer os novos mecanismos de violência. “Essa Ângela hoje seria muito mais massacrada na internet, na vida, onde quer que fosse”, analisa. A minissérie, nesse sentido, propõe um duplo movimento: revisitar o que foi e tensionar o que ainda é.
As longas cenas de tribunal se tornaram um dos eixos mais densos do processo de gravação. Emilio descreve um método exaustivo, mas profundamente reflexivo, em que cada depoimento era trabalhado ao limite, em diversos planos, quantos o diretor achasse necessários.
“A gente passava o dia ali, remoendo aquele texto, interpretando de novo e de novo”, recorda. O cansaço físico vinha acompanhado de um desgaste emocional inevitável.
“Quando todas as reflexões possíveis já tinham vindo à mente, entrava o Fagundes para fazer a defesa e voltava a ser uma aula para nós”, completa, enaltecendo a experiência artística. Na minissérie, Antônio Fagundes interpreta o jurista Evandro Lins e Silva, responsável pela defesa de Doca.
A decisão de não encenar o assassinato também atravessou diretamente o trabalho do ator. Para Emilio, mostrar o crime significaria uma intenção que a produção se recusa a oferecer ao espectador.
“Eu não queria, de jeito nenhum, assumir a responsabilidade de entregar o que o Doca estaria sentindo no momento daqueles tiros”, explica. Para ele, qualquer tentativa de representação correria o risco de direcionar o pensamento do público. “Isso atrapalha todo o nosso exercício de julgamento”, avalia.
Inspirada livremente no podcast “Praia dos Ossos”, da Rádio Novelo, a minissérie mantém, segundo Emilio, algo raro em adaptações desse tipo: a atmosfera original do material. “É a primeira vez que eu vejo um projeto adaptado de um podcast que tem muito a cara do podcast”, observa. A sensação, diz, é quase sensorial. “Muitas vezes, assistindo à série, eu me sentia, mesmo que por dois segundos, no podcast”, conta, apontando uma convergência entre escuta, imagem e tempo narrativo.
“Ângela Diniz: Assassinada e Condenada” – HBO Max.










