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Entrevistas Sexta-feira, 09 de Setembro de 2022, 10:21 - A | A

09 de Setembro de 2022, 10h:21 - A | A

Entrevistas / SAÚDE MENTAL

Pesquisador fala de doenças mentais, suicídio e como melhorar o ambiente de trabalho

Hoje, muito se confunde tristeza com depressão, que são coisas bem diferentes. A tristeza é normal a qualquer ser humano, já a depressão não é bem assim



Assessoria

Neste mês é celebrado o Setembro Amarelo, campanha que chama a atenção para o suicídio e sua correlação com as doenças da mente, como a depressão. As ações desenvolvidas têm como pano de fundo o alto número de mortes: somente no Brasil cerca de 38 pessoas tiram a própria vida por dia. São 14 mil ao ano.  

O professor e pesquisador da Unicamp José Roberto Heloani foi entrevistado pelo Tribunal Regional do Trabalho e falou da importância de se atentar aos indícios da doença e a sua correlação com um ambiente de trabalho não saudável. Veja entrevista:  

Qual a relação entre o suicídio, a depressão e as doenças da mente?

  R- Hoje, muito se confunde tristeza com depressão, que são coisas bem diferentes. A tristeza é normal a qualquer ser humano, já a depressão não é bem assim. Eu posso ficar triste em ter tido uma notícia que não foi a que eu queria ou porque tive um desentendimento com a minha companheira. A tristeza faz parte da vida. Outra coisa é a depressão. Essa é constante! A depressão causa interações, inclusive bioquímicas, na chamada química fina, nos neurotransmissores e é por isso que, na depressão, o sujeito precisa do apoio fisioterápico e, muitas vezes, de medicação ou geralmente dos dois.  

O que pode levar ao surgimento de doenças como a depressão no ambiente de trabalho?

R- Os novos modelos de gestão pregam um trabalho muito mais individualizado. O que você tem em um ambiente de trabalho, na atualidade, são pessoas juntas fisicamente, mas, do ponto de vista emocional e afetivo, estão separadas. É claro que se todo mundo começa a pensar só nele, eu estou torcendo para que o outro não se saia bem porque aí eu me destaco. Esse é o grande mal: para me destacar, eu preciso que o outro não se destaque. O resultado disso é que estamos todos sozinhos e é isso que vai nos levar à depressão.  

É preciso que as organizações pensem em formas melhores de integração das equipes?

R- Precisamos adotar uma avaliação que não seja individualizada, mas, principalmente, respeitosa, com caráter pedagógico. Com isso, as pessoas voltam a ter um espírito de grupo Elas percebem que podem ajudar as outras pessoas e que elas também serão ajudadas. Isso muda completamente o ambiente tornando-o muito mais leve e facilitando a própria tarefa.

  Além do trabalho individualizado, questões como o assédio também podem prejudicar a saúde e o ambiente de trabalho?

R- Pesquisamos há 25 anos a questão do assédio e observamos que quando o suicídio ocorre no local de trabalho, salvo exceções, ele tem relação direta com o próprio trabalho. Ou seja, o trabalho pode ter sido um fator desencadeante ou o fator principal que levou aquela pessoa à ideia de pôr fim à própria vida. O assédio moral é algo constante e sistemático que vai minando a dignidade da pessoa e a sua identidade.  

Como identificar que preciso procurar ajuda profissional?

R- Geralmente, as pessoas vão empurrando e pensando que logo à frente vai melhorar. Esse é o grande erro! Deve-se procurar ajuda quando perceber que já não está dormindo bem, que está mais frágil psicologicamente do que antes, que está demasiadamente sensível.

Quando qualquer coisa te emociona, quando você tem mudanças fortes no apetite e começa, cada vez mais, a perder o gosto pelo trabalho e, mais do que isso, pela própria vida. Às vezes, também pode ser fundamental colocar para família o que está acontecendo, porque a família, às vezes, é o último local psíquico de confiabilidade. Não postergue a procura por um profissional. Ele vai ser fundamental para segurar esse processo!  

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