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Opinião Quarta-feira, 04 de Março de 2026, 09:42 - A | A

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Mato Grosso e a face escancarada do machismo

Que tipo de formação social ainda alimenta homens que se julgam superiores



Marcella Magalhães

Mato Grosso figura, reiteradamente, entre os estados com índices alarmantes de violência contra a mulher e feminicídio. Os números divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública escancaram uma realidade que não pode mais ser tratada como estatística fria: trata-se de vidas interrompidas, famílias devastadas e mulheres que vivem sob ameaça constante.

  Mas há uma face ainda mais silenciosa — e igualmente cruel — dessa violência: a perseguição política contra mulheres que ousaram ocupar espaços de poder.  

Quando uma mulher conquista um cargo público pelo voto popular, o que deveria ser motivo de celebração democrática transforma-se, muitas vezes, em palco de ataques pessoais, difamações e calúnias.

Em Mato Grosso, esse movimento tem se tornado recorrente. Questiona-se sua capacidade antes mesmo de avaliar seu trabalho. Julga-se sua postura antes de analisar suas propostas. Ataca-se sua vida pessoal quando faltam argumentos contra sua atuação pública.  

Até onde impera o machismo? Que tipo de formação social ainda alimenta homens que se julgam superiores, que acreditam ter autoridade natural sobre o corpo, a voz e a trajetória das mulheres? O mundo mudou de fato ou apenas aprendemos a maquiar velhas estruturas com discursos modernos?   Vivemos um tempo de aparente avanço.

As mulheres estudam mais, ocupam cargos estratégicos, lideram instituições. No entanto, quanto mais visibilidade conquistam, mais resistência enfrentam. A violência que antes era restrita ao ambiente doméstico agora transborda para os plenários, para as redes sociais, para os bastidores do poder.

  É preciso nomear o que está acontecendo: não se trata de divergência política — isso é parte legítima da democracia. Trata-se de violência política de gênero.   É o uso sistemático da desqualificação moral como arma. É a tentativa de silenciar pela humilhação. É a estratégia de enfraquecer pela exposição. É o velho método de manter mulheres “no seu lugar”.  

Mas elas não voltarão. Cada mulher que resiste hoje, que enfrenta o tribunal das redes, os ataques velados e as insinuações maldosas, está abrindo caminho para outras. Está ampliando a fronteira do possível. Está mostrando às meninas que é possível ocupar espaços historicamente negados — mesmo que o preço ainda seja alto.   A indignação é legítima.

A violência que antes era restrita ao ambiente doméstico agora transborda para os plenários, para as redes sociais, para os bastidores do poder

O silêncio, não. Não se combate o machismo com complacência. Combate-se com firmeza, com denúncia, com união e, sobretudo, com presença. A presença feminina na política não é concessão — é direito. É conquista. É democracia em sua essência.  

Se há quem tente desacreditar, há também quem construa. Se há quem ataque, há quem resista. E a resistência, quando coletiva, transforma estruturas.  

Dias melhores virão — não por ingenuidade, mas por construção. Porque essas mulheres que hoje enfrentam a violência política estão pavimentando um caminho mais justo. Estão plantando respeito onde antes havia silêncio. Estão desafiando estruturas que por séculos pareceram inabaláveis.  

O machismo não é maior que a história. E a história já começou a mudar.   Que o respeito impere. Que a empatia prevaleça. E que a democracia, de fato, seja para todos — e todas.  

Marcella Magalhães – Jornalista    

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