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16 de Fevereiro de 2026, 14h:51 - A | A

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Infâncias em risco

A insegurança urbana e a escassez de políticas públicas de lazer empurram as crianças para o confinamento doméstico



Kamila Garcia

Tenho a sensação de que estamos nos acostumando a ver a infância encolher diante dos nossos olhos. Onde antes havia rua, ludicidade e tempo livre, hoje há portas fechadas, telas acesas e uma pressa que não combina com o ser criança. Não se trata de mera nostalgia. A Psicologia do desenvolvimento demonstra que a infância exige tempo, experiências concretas e alteridade.

Jean Piaget já alertava que cada etapa do desenvolvimento possui uma função estruturante; pular fases compromete a formação cognitiva e emocional, gerando lacunas de difícil reparação. Na mesma linha, Donald Winnicott ressaltava que é no brincar — em um ambiente suficientemente seguro — que a criança constitui sua saúde emocional, cria sua subjetividade e aprende a se relacionar com o mundo. Parte desse problema, contudo, não recai apenas sobre os ombros das famílias.

A insegurança urbana e a escassez de políticas públicas de lazer empurram as crianças para o confinamento doméstico. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) atribui ao Estado a responsabilidade de garantir, com prioridade absoluta, direitos como à vida, à saúde e à liberdade. Quando essa rede falha, o prejuízo é coletivo e sistêmico. Como paliativo para o isolamento e o tédio, entregamos telas.

A insegurança urbana e a escassez de políticas públicas de lazer empurram as crianças para o confinamento doméstico

Mas o ambiente digital não substitui o convívio real nem o tempo da latência. Ao contrário: sem a devida mediação, o mundo digital promove uma adultização precoce, impondo padrões estéticos irreais e expondo os pequenos a conteúdos para os quais não possuem maturação psíquica.

O resultado se manifesta cedo: níveis alarmantes de ansiedade, fragilidade emocional e uma incapacidade crônica de lidar com as frustrações inerentes à vida. Proteger a infância não é romantizar o passado — é escolher, no presente, que tipo de sociedade desejamos construir.

Isso exige um compromisso ético das famílias, da escola, do poder público e de cada um de nós. A infância passa rápido. As consequências de negligenciá-la, não.

  Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise  

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