Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2026

Opinião Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2026, 10:50 - A | A

13 de Fevereiro de 2026, 10h:50 - A | A

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Quando a Cultura Normaliza a Violência

Mudam-se os personagens, permanece a violência



Andréa Maria Zattar

Ei, pare um instante e lembre-se de Olívia Palito. A mulher magra, de vestido vermelho, sempre no centro da disputa entre Popeye e Brutus. Durante décadas, aceitamos Popeye como entretenimento inofensivo: força, humor e uma “donzela” em jogo. Vista com olhos adultos, a cena se transforma. O riso encobria uma violência estrutural, apresentada como diversão. Olívia não é a figura frágil dos contos de fadas.

Trabalha e vive com autonomia. Ainda assim, nas relações afetivas, perde espaço e poder de decisão. A independência econômica não se converte em liberdade de escolha. No enredo, ela existe, mas não decide. Oscila entre a brutalidade e a falsa proteção porque a lógica da história nunca lhe deu o direito de escolher.

O silêncio de Olívia é tratado como traço de personalidade. A insegurança e o medo servem de cenário para a disputa masculina. O que deveria provocar reação vira espetáculo. Brutus não se aproxima de Olívia por afeto, mas por rivalidade com o outro marinheiro. Sua presença é disputa, não vínculo. Olívia não ocupa o centro da relação; é deslocada da decisão. A força resolve o conflito. Nada disso é casual.

A violência deixou de causar revolta e passou a integrar o enredo. Ao se repetir, foi sendo aceita como parte da história. No Brasil, essa discussão é também jurídica. A Lei Maria da Penha reconhece cinco formas de violência contra a mulher: física, psicológica, moral, patrimonial e sexual.

O que por muito tempo foi tratado como conflito de natureza privada passou a ser tema de política pública, de interesse social e de responsabilidade do Estado. A violência contra a mulher é progressiva. Começa com sinais claros e ganha força. Quando ignorados, esses sinais apontam para risco real, muitas vezes fatal. As medidas protetivas existem para interromper essa escalada antes que a violência se torne irreversível.

O feminicídio não começa no crime. É resultado de sinais que se agravam ao longo do tempo. Eles aparecem na fala, no gestual, no controle, na intimidação, no isolamento e na agressão.

insegurança e o medo servem de cenário para a disputa masculina

Enfrentar a violência contra a mulher exige políticas públicas eficazes, redes de proteção acessíveis e atuação institucional permanente.

Punição é resposta tardia e, quando chega, significa que a prevenção falhou e a mulher já se tornou estatística. Enquanto isso persistir, a história não avança e a sociedade não evolui. Mudam-se os personagens, permanece a violência. A cultura troca os nomes, os noticiários divulgam as estatísticas, a polícia registra a ocorrência e o Poder Judiciário recebe mais um processo.  

Andréa Maria Zattar, advogada trabalhista, previdenciarista, membro da Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica – ABMCJ; membro efetivo da OAB/MT

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