por Luana Borges
TV Press
O humor definiu boa parte da trajetória de Lúcio Mauro Filho. Depois de 14 anos no elenco de “A Grande Família”, ele reforçou seu vínculo com a comédia ao integrar “Chapa Quente”. Mesmo assim, o ator sempre sentiu a necessidade de experimentar coisas novas. A oportunidade finalmente chegou com Roney, em “Malhação”, na temporada de 2017. E a experiência em novelas ganhou ainda mais estofo com o convite para viver Mário, em “Bom Sucesso”. “Para um ambiente de novela, mesmo eu sendo um veterano, sou um novato. O público estava desacostumado de me ver da dramaturgia, no registro mais realista”, avalia.
Na história, Mário até tem senso de humor, mas não é declaradamente um personagem cômico. Trabalha na editora comandada por Nana, de Fabiula Nascimento, por quem nutre uma paixão platônica. Mas ela é casada com Diogo, de Armando Babaioff, que também é advogado da empresa. “Existe um embate entre eles. Diogo é um cara manipulador e está sempre armando. Mário é um contraponto, ele é da paz, mas que tem as suas armas também”, detalha.
P – Como você define seu personagem em “Bom Sucesso”?
R – Mário é o editor-chefe da Prado Monteiro e é poeta também, mas um poeta que não vingou. Na verdade, acho que ele não tem essa vaidade de ser um nome, é mais resignado nesse sentido. Acho que isso se deve pelo fato de trabalhar ali há muitos anos. Ele foi absorvido pela empresa muito jovem, por ser um amigo de infância e adolescência de Nana. É aquele namoradinho de infância que vira amigo da família. Acho que ele galgou os degraus da profissão dentro do ambiente da editora, então é a verdadeira casa do Mário. Tem uma conexão muito forte com a família, um amor platônico por Nana que atravessa os tempos, uma amizade com o Marcos (Rômulo Estrela). Ele foi com certeza um conselheiro, um amigo mais velho que a família delegava a função de segurar a onda do moleque. E por isso mesmo que o seu Alberto (Antônio Fagundes) tem um carinho especial por ele. Para além do profissional, ele é aquela pessoa meio que agregada da família.
P – Você se inspirou em alguém para a construção do papel?
R – Eu fui pincelando figuras interessantes da literatura, então meu personagem tem um pouco de Xico Sá e Gregório Duvivier. Mário é dessa turma mais boêmia. Acho que, se fosse me inspirar em alguém especificamente, talvez eu perdesse um “molho” que é justamente o diferencial desse personagem dentro da trama. Não vou dizer que é uma raridade, mas editor-chefe que é poeta é algo curioso. Um editor-chefe tem de ser um pouco rabugento, de uma certa maneira. Ele tem uma responsabilidade muito grande dentro de uma editora. Por isso mesmo, uma figura que tem esse lado desleixado, a princípio, você desconfia. Agora, ele delega muito bem as funções porque é muito querido. Ele sabe tocar a editora na base do afeto, amizade e reconhecer os talentos. Pela intuição do ator, pela nossa preparação, o personagem foi indo para esse lugar de ter uma confiança muito grande das pessoas que lhe cercam.
P – Esta é a primeira vez que você faz um papel com uma ligação tão forte com literatura?
R – Na verdade, eu aproveitei uma experiência que tive. Meu primeiro longa-metragem, escrito por mim, se passa dentro de uma feira literária durante um fim de semana. São três protagonistas, mas eu diria que o personagem central é um escritor. Por uma coincidência maravilhosa do destino, há três anos eu vinha trabalhando nesse projeto e tendo de estudar, frequentar as feiras. Aí quis o destino que viesse um personagem como esse. Então a minha preparação começou há três anos. Talvez, isso também tenha me influenciado a não escolher uma figura inspiradora. Como eu já estava com esse universo muito impregnado por causa do roteiro, me senti mais livre para experimentar. E também gosto quando o personagem vem da vivência junto com a turma, e não da coisa solitária do ator. Eu já sou comediante, então, naturalmente, tenho uma tendência ao “tipo”. Nessa minha volta às novelas, essa é uma preocupação que eu tenho de ter, de não cair naquele lugar onde todo mundo já conhece.
P – A morte é um dos temas centrais de “Bom Sucesso” e, há alguns meses, você teve de lidar com a morte de seu pai, Lúcio Mauro. Como manteve a serenidade naquele momento?
R – São vários fatores. Primeiro: quando papai fez 80 anos, ele teve um problema de saúde, ficou no hospital internado e eu fiquei com ele. Me caiu essa ficha lá, por uma provocação dele mesmo. Ele perguntou para mim: “e se eu quiser morrer? Está tudo ok?”. Apesar de ter respondido que sim, eu vi que não estava. Isso acabou gerando a peça “Lúcio 80-30”, que escrevi para fazer com ele e meus irmãos, que se passava dentro do hospital e o assunto era a morte. Mais uma vez, um trabalho anterior me preparou para uma emoção posterior. Na feitura da peça, eu fui estudar o assunto morte e o perder do patriarca. De uma certa maneira, iniciou em mim, nos meus irmãos e na minha família essa questão da finitude.
P – Quando foi isso?
R – Há dez anos. Ficamos dois anos rodando o Brasil com a peça e foi uma maravilha. Com certeza, renovou a vida do meu pai por mais dez anos. A peça teve essa função. A peça, de uma certa maneira, começou a nos preparar porque falávamos com muita comédia e afeto sobre o assunto morte. É muito arriscado fazer uma peça sobre esse assunto se não for muito verdadeiro, afetuoso, igual como estávamos: pai e filhos, falando da gente e dividindo com o público essa questão.
“Bom Sucesso” - Globo - De segunda a sábado, às 19h20.