POR MÁRCIO MAIO/TV PRESS
Nem sempre a agenda de uma atriz permite abraçar um novo trabalho sem hesitação. No caso de Elisa Lucinda, porém, o convite para viver a destemida Zuzu em “Coração Acelerado” falou mais alto. A artista estava prestes a sair em turnê com um novo espetáculo, “O Princípio do Mundo”, quando surgiu a proposta para a novela das sete da Globo.
Decidiu aceitar o desafio, principalmente pelo potencial da personagem e pela atmosfera criativa da produção. “Foi uma surpresa o convite naquele momento, eu estava com turnê pronta do meu espetáculo novo. Mas topei com o mesmo tesão que eu topei fazer a Dona Marlene de ‘Vai na Fé’”, afirma.
Na trama criada por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento, Zuzu – ou Zuleica – é a madrinha de Agrado, vivida por Isadora Cruz, e uma figura fundamental na trajetória da jovem cantora. Dona de uma caravana de shows itinerantes pelo interior do Brasil, ela acolhe Janete, papel de Letícia Spiller, quando a amiga precisa recomeçar a vida e se torna um pilar afetivo e prático para a família.
“Zuzu é uma mulher independente, que tem uma caravana cultural e teve dificuldades como mulher e como negra no sertanejo, que é racista”, observa, destacando que a personagem nasce justamente da força feminina que atravessa a história.
A experiência de gravar uma novela ambientada em Goiás também tem significado especial para a Elisa Lucinda
A experiência de gravar uma novela ambientada em Goiás também tem significado especial para a Elisa Lucinda, que já conhece bem a região.
“Gosto daquele lugar, tenho um público forte em Goiânia. Minhas peças sempre lotam lá. É um estado rico, onde já fiz três filmes”, valoriza. Para a atriz, “Coração Acelerado” também ajuda a revelar a riqueza cultural da área. “A estrutura da cultura goiana é muito maior do que se pensa”, defende.
P – Qual a importância de ‘Coração Acelerado’ abordar o universo sertanejo e questões femininas?
R – Essa novela é muito providencial. O sertanejo é um lugar de um machismo tóxico por herança, por excelência. E esse assunto estar na mão dessas autoras é uma oportunidade de ter uma condução crível e assertiva desse lugar. Eu tenho percebido, nesse momento da minha vida, que entre tantos homens bacanas que conheço, inclusive meus próprios colegas de elenco, que eu não sei a opinião deles sobre feminicídio. E são homens bacanérrimos! Então, acho que esse silêncio dos homens bacanas fez o assunto ficar generalizado e a gente achar que todo mundo é agressor.
P – O que chama a sua atenção na forma como a novela trata esses temas?
R – Acho que a novela está sendo escrita por mulheres que estão ligadíssimas em como o feminino dá conta da pluralidade do mundo. Você vê que não tem uma personagem ali...
É tudo muito enraizado, matriarcalmente falando. E a gente pode fazer uma coisa cada vez mais provocadora. Sempre acho que a arte tira retrato da sociedade e nos mostra. Cada um nasce com seus instrumentos, seus equipamentos. E esse retrato que a gente está tirando do Brasil – e que o Brasil não conhece – discute assuntos profundos. Eu acho isso fantástico.
P – Você acredita no poder educativo da arte e da novela?
R – Nós conseguimos isso com “Vai na Fé”, tinha coisas incríveis sendo debatidas às sete horas da noite, como o racismo, por exemplo. Então, acho que a gente está com uma oportunidade grande nesse Brasil muito sudestino, viciado em Sudeste como a referência de tudo. Eu estou viajando nessa novela. É um elenco que eu não conheço todo, mas que tem alegria! É um pessoal interessante, não tem nada pesado.
Acho que estamos fazendo uma coisa muito poderosa. A gente lê e o texto é uma delícia: bem escrito, bom de falar, não é burro. Debaixo de qualquer trivialidade, tem coisa sendo passada ali filosoficamente. Sempre digo que aprendi mais sobre o Egito com Margareth Menezes e Olodum do que na minha escola. Então, é sobre o poder de educação que a arte tem. A gente, às vezes, canta até a música que a gente não gosta, porque a arte tem esse poder de captar.
P – Como você define a essência da Zuzu?
R – A marca da Zuzu, para mim, é ela ser solteira não por ter sido rejeitada, mas porque ela é de uma geração que tinha de casar e ela não quis. Ela não quis obedecer a um homem, não quis um homem limitando seu sonho, sua alma meio nômade. E bancou essa escolha. Eu adorei que as meninas escreveram uma Zuzu sem maneirismos machistas.
Ao contrário: ela tem sabedoria, sempre na linha do feminino. A gente tende a achar que a mulher produtiva, proativa, é fálica. Mas devemos parar com essa referência patriarcal. Zuzu joga sinuca, é uma mulher que é uma referência de força, mas sem sofrimento demais, sem ser caminhoneira. Quero a imagem dela com a sinuca e com as unhas postiças. É uma mulher que carrega muitas coisas dos lugares onde esteve. É uma senhora gostosona, bonitona.
P – Depois de tantos trabalhos em diferentes linguagens, o que a televisão exige de especial do ator?
R – Eu sou atriz de teatro, faço outras mídias, mas acho que o ator de tevê deve ser muito considerado porque essa arte deixa a gente esperto. Você se prepara para chorar, porque 9h30 vai ter o enterro do seu marido e está tudo marcado.
Mas, aí, muda tudo e você acaba de almoçar, descobre que a cena vai ser agora e tem de ficar esperto para acessar rapidamente aquelas emoções. Mais do que tudo, cada um cuida de um pedacinho para compor uma história inteira. Precisamos achar uma unidade no mosaico.
“Coração Acelerado” – Globo – Segunda a sábado, na faixa das 19h. Reprise alternativa na madrugada











